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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

II Encontro Acadêmico-comunitário da Unitinerante e XI Encontro Temático da Rede CASLA-CEPIAL



A academia através do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG, os quais desenvolve projetos de pesquisa e extensão com sujeitos de grupos étnicos e agricultura familiar na zona rural de Ponta Grossa e Campo Largo, em parceria com os faxinalenses da comunidade Sete Saltos de Baixo (Ponta Grossa-PR), os quilombolas da comunidade Palmital dos Pretos (Campo Largo-PR) os agricultores familiares da comunidade rural de Sete Saltos de Cima (Ponta Grossa-PR) sediaram a programação dos primeiros dias do evento "II Encontro Acadêmico-comunitário da Unitinerante e XI Encontro Temático da Rede CASLA-CEPIAL", que teve como temática os "Saberes Geocológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial". No período de 17 a 19 de agosto as atividades foram direcionadas às problemáticas e demandas destes moradores, e, de modo muito espontâneo, alunos, professores e moradores conversaram sobre diferentes temáticas nos ambientes comunitários, nas estradas, na mata, nos quintais, nas casas.
O criadouro comunitário das famílias faxinalenses recebeu junto aos seus rebanhos de animais soltos, que passam o dia circulando para baixo e para cima, o movimento daqueles que fazem dali seu campo de estudo e reflexão. Nesta ocasião convidou-se à todos para debater, lembrando que o Faxinal Sete Saltos de Baixo é o último remanescente deste modo de vida em Ponta Grossa, anfitrião, apresentou-se ao evento acadêmico-comunitário valorizando ao cenário edílico os saberes-fazeres faxinalenses. Durante as oficinas de práticas culturais Srª Jesuvina e Maria demonstraram com tamanha destreza a confecção no pilão da erva-mate e da paçoca de carne.


Ao debater a problemática da agrobiodiversidade e a implementação de Sistemas agroflorestais, direcionou-se com os participantes para a propriedade da Família Marques, os três irmãos, Benjamin, Maria e Augusta, trouxeram na fala bem apregoada as marcas que a agricultura convencional deixou naquela terra, agora da família. Movimentados pelos conhecimentos agroecológicos a família retrabalha o solo com a alternância de plantas alimentícias convencionais e plantas alimentícias não-convencionais no mesmo agroecossistema produtivo sem uso de agrotóxicos.
Ao andar a que se olhar para o chão, mesmo com o encantamento frente aos olhos, há vidas, alimentos que não costuma-se consumir, que estão ali, espalhando-se entre uma ou outra plantação corriqueira. O agroecossistema reverberando-se em transição já verdeja em muitas tonalidades.


Vestido para adentrar a mata como quase todos os dias de trabalho na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, Sr. Alceu Carneiro conduz o grupo de participantes do evento para vestir-se da mata que circunda a estrada principal. Passos pisoteiam as trilhas remanescentes, agora caminho de gado, mas a memória altiva do mateiro quilombola caminha pelas árvores nativas, nomeando-as conforme o seu uso, atual e de outrora.    


Há que se pensar que o novo também imbrica-se do velho, e, faz dele sua morada, o líder quilombola Arildo Moraes de Portela, jovem de 25 anos, resgata os saberes de seus antepassados e associa aos novos conhecimentos agroecológicos. Um construtor que recicla saberes e nos possibilita uma volta rápida ao passado ao cruzar a porta de madeira e olhar para o alto vendo sobre as toras de madeira encobertas com o sapé estrepe, e, retornar os olhos para o chão batido, para as paredes de adobe ou para o fogão de barro vivencia-se, ali, muitos aspectos da cultura quilombola, perdidas há muito e em muitas comunidades.


As mãos que aram o chão são as que guardam as sementes, e para além disso, as semeiam, o casal agroecológico Antônio e Cida do Ceta/Asaeco, como o trabalho dos pássaros viageiros, estão a distribuir por onde passam as sementes crioulas e orgânicas que possuem.


Seguindo a revoada do evento para Curitiba, na Casla, alguns representantes das comunidades levaram mais do que a diversidade de produtos para comercializar na 1ª Feira de Sabores e Sementes, mas a expressividade viva de suas falas, transpuseram as comunidades com suas práticas culturais em oficinas de confecção de canjica com cinza no pilão, e, cuia de porongo e bomba de bambu. A resistência da cultura cultua cheia de emoções ao ver que o outro ao resistir tombou ao chão, mas a fala embargada, um choro falado, traduziu as palavras da indígena Xetá, uma das últimas descendentes deste povo, e junto destes reafirmou a importância da luta dos grupos étnicos.  

Há quilômetros de distâncias de suas paragens em Ponta Grossa e Campo Largo, Arildo, Maria e João, moradores do Palmital e Sete Saltos de Cima, pisaram pela primeira vez no litoral paranaense. As águas salgadas saudaram seus pés, assim como, os caiçaras da Comunidade Guaraguaçu, onde permaneceu-se do dia 23 a 27 de agosto de 2018. O olhar atento de quem de longe vem para guardar na memória tudo o que for possível experenciar deixou que as mãos manipulassem o bambu e as fibras de bananeira com o mesmo entusiasmo que acompanharam a fala da caiçara repassando os conhecimentos das ervas medicinais as margens do rio Guaraguaçu ou o primeiro contato com uma comunidade índigena e o sambaqui.


A troca de experiências dos moradores das comunidades rurais, tradicionais, entre si ressalta as especificidades das práticas culturais, as problemáticas comuns, as resistências, os movimentos e a inserção de seus modos de vida em uma sociedade capitalista e globalizada, que precisa reafirmar-se constantemente e fortalecer-se a outros realidades e grupos étnicos, assimilando o que pode potencializar a vida cotidiana em seus locais de origem. Agradece-se a parceria firmada com as quatro comunidades, o diálogo prático-teórico, a disponibilidade para a imersão em ambiente externo, e, a representatividade destes, expondo suas falas e saber-fazeres em distintos momentos do evento. A academia se enriqueceu da cultura, do cotidiano, das vivências do Sete Saltos de Baixo, Do Palmital dos Pretos, do Sete Saltos de Cima e do Guaraguaçu. Gratidão

Por Tanize Tomasi - Pós-doutoranda PPG-UEPG e Integrante do Grupo de Pesquisas Interconexões-UEPG 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

10º Encontro Celebração da vida da Agricultura Familiar

Soleando a colheita aos 28 dias de julho de 2018 em terras agroecológicas da receptível comunidade rural de Sete Saltos de Cima em Ponta Grossa-PR, os anfitriões Asaeco (Associação Solidária da Agricultura Ecológica de Ponta Grossa e Região), Ceta (Centro de Estudos e Treinamento em Agroecologia) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ponta Grossa, representados pelos seus membros, conduziram a chegada dos convidados, participantes do 10º Encontro "Celebração da vida da Agricultura Familiar". 
Ao centro Antônio Ostrufk fundador do Ceta e Asaeco em atividade prática agroecológica
Foto 01 - 10° Encontro "Celebração da vida da Agricultura Familiar"
Ao centro Antônio Ostrufk, fundador do Ceta e Asaeco, em atividade prático-agroecológica em sua propriedade
Fonte: Tomasi, 2018.

Ao observar os passos de quem já caminhou para lá e para cá e fez da sua última paragem muitos caminhos para outros chegarem, em poucos minutos de conversa na roça a emoção de ver vidas ganhando chão fértil. A produtividade alicerçada à diversidade colorida, são tantas tonalidades entrelaçadas, seja aquelas comumente vistas e servidas as nossas mesas, como àquelas doutrora pisoteadas ou exterminadas e que agora se fazem alimento (Pancs). Até onde a vista alcança olhar, fomos olhados pelo novo, a possibilidade de plantar o respeito aos ciclos naturais. A potencialidade de se alimentar à produção dos elementos disponíveis na propriedade familiar e o entrelaçamento à vizinhança.

Foto 02 - 10° Encontro "Celebração da vida da Agricultura Familiar"
Convidados manipulando a palhada em terra de pousio/recuperação da fertilidade
Fonte: Tomasi, 2018.


A diversidade está nas formas que os produtores vivem seus lugares, Antônio Ostrufk, sua esposa Cida (Presidente da Asaeco), seu filho Luciano, nora Ana Paula e neta Ana Júlia, vivenciam o cotidiano de ser/estar agroecológico. Transgredindo o modo convencional de produzir para algo que justifica e enaltece a riqueza ambiental local. 

Fotos 03 e 04 - 10° Encontro "Celebração da vida da Agricultura Familiar"
As mãos carregadas pela vida  - Planta alimentícia não convencional "Trevo" e Solo com microorganismos ativos
Fonte: Tomasi, 2018.

As mãos de um produtor e incentivador dos estudos agroecológicos nos assegura a possibilidade de desenvolver técnicas e saberes pertencentes àqueles que fazem da terra sua morada, campo sagrado para trilhar histórias de vida. Antônio mais do que ninguém celebra a vida do trabalhador do campo e nos ensina a sermos atentos ao céus e terras entre os quais fazemos-nos vivos. O diálogo apurado de quem faz sua própria observação-participante, identificando as respostas que a própria natureza fornece a determinados cultivos. 
O Projeto Alimentando à Vida promove a inclusão de produtores que já desenvolvem práticas agrícolas familiares que sustenta a agrobiodiversidade local, e, mais do que isso possibilita a comercialização destes produtos. O alcance regional dá voz aos sujeitos invisibilizados que têm condições de participar do mercado local-regional com alimentos sustentáveis e saudáveis.
A resistência por uma agricultura familiar sustentável pela agroecologia foi a grande temática deste 10º Encontro. 

Foto 05 e 06 - 10° Encontro "Celebração da vida da Agricultura Familiar"
Diversidade alimentar e sementes crioulas
Fonte: Tomasi, 2018.





A rede de conexões agroecológicas e seus parceiros se mostra receptiva aos esforços de todos os produtores, participantes e adeptos da agroecologia em unidades familiares.

Por Tanize Tomasi 
Pós-Doutoranda UEPG
Grupo Interconexões