O criadouro comunitário das famílias faxinalenses recebeu junto aos seus rebanhos de animais soltos, que passam o dia circulando para baixo e para cima, o movimento daqueles que fazem dali seu campo de estudo e reflexão. Nesta ocasião convidou-se à todos para debater, lembrando que o Faxinal Sete Saltos de Baixo é o último remanescente deste modo de vida em Ponta Grossa, anfitrião, apresentou-se ao evento acadêmico-comunitário valorizando ao cenário edílico os saberes-fazeres faxinalenses. Durante as oficinas de práticas culturais Srª Jesuvina e Maria demonstraram com tamanha destreza a confecção no pilão da erva-mate e da paçoca de carne.
Ao debater a problemática da agrobiodiversidade e a implementação de Sistemas agroflorestais, direcionou-se com os participantes para a propriedade da Família Marques, os três irmãos, Benjamin, Maria e Augusta, trouxeram na fala bem apregoada as marcas que a agricultura convencional deixou naquela terra, agora da família. Movimentados pelos conhecimentos agroecológicos a família retrabalha o solo com a alternância de plantas alimentícias convencionais e plantas alimentícias não-convencionais no mesmo agroecossistema produtivo sem uso de agrotóxicos.
Ao andar a que se olhar para o chão, mesmo com o encantamento frente aos olhos, há vidas, alimentos que não costuma-se consumir, que estão ali, espalhando-se entre uma ou outra plantação corriqueira. O agroecossistema reverberando-se em transição já verdeja em muitas tonalidades.
Vestido para adentrar a mata como quase todos os dias de trabalho na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, Sr. Alceu Carneiro conduz o grupo de participantes do evento para vestir-se da mata que circunda a estrada principal. Passos pisoteiam as trilhas remanescentes, agora caminho de gado, mas a memória altiva do mateiro quilombola caminha pelas árvores nativas, nomeando-as conforme o seu uso, atual e de outrora.
Há que se pensar que o novo também imbrica-se do velho, e, faz dele sua morada, o líder quilombola Arildo Moraes de Portela, jovem de 25 anos, resgata os saberes de seus antepassados e associa aos novos conhecimentos agroecológicos. Um construtor que recicla saberes e nos possibilita uma volta rápida ao passado ao cruzar a porta de madeira e olhar para o alto vendo sobre as toras de madeira encobertas com o sapé estrepe, e, retornar os olhos para o chão batido, para as paredes de adobe ou para o fogão de barro vivencia-se, ali, muitos aspectos da cultura quilombola, perdidas há muito e em muitas comunidades.
As mãos que aram o chão são as que guardam as sementes, e para além disso, as semeiam, o casal agroecológico Antônio e Cida do Ceta/Asaeco, como o trabalho dos pássaros viageiros, estão a distribuir por onde passam as sementes crioulas e orgânicas que possuem.
Seguindo a revoada do evento para Curitiba, na Casla, alguns representantes das comunidades levaram mais do que a diversidade de produtos para comercializar na 1ª Feira de Sabores e Sementes, mas a expressividade viva de suas falas, transpuseram as comunidades com suas práticas culturais em oficinas de confecção de canjica com cinza no pilão, e, cuia de porongo e bomba de bambu. A resistência da cultura cultua cheia de emoções ao ver que o outro ao resistir tombou ao chão, mas a fala embargada, um choro falado, traduziu as palavras da indígena Xetá, uma das últimas descendentes deste povo, e junto destes reafirmou a importância da luta dos grupos étnicos.
Há quilômetros de distâncias de suas paragens em Ponta Grossa e Campo Largo, Arildo, Maria e João, moradores do Palmital e Sete Saltos de Cima, pisaram pela primeira vez no litoral paranaense. As águas salgadas saudaram seus pés, assim como, os caiçaras da Comunidade Guaraguaçu, onde permaneceu-se do dia 23 a 27 de agosto de 2018. O olhar atento de quem de longe vem para guardar na memória tudo o que for possível experenciar deixou que as mãos manipulassem o bambu e as fibras de bananeira com o mesmo entusiasmo que acompanharam a fala da caiçara repassando os conhecimentos das ervas medicinais as margens do rio Guaraguaçu ou o primeiro contato com uma comunidade índigena e o sambaqui.
A troca de experiências dos moradores das comunidades rurais, tradicionais, entre si ressalta as especificidades das práticas culturais, as problemáticas comuns, as resistências, os movimentos e a inserção de seus modos de vida em uma sociedade capitalista e globalizada, que precisa reafirmar-se constantemente e fortalecer-se a outros realidades e grupos étnicos, assimilando o que pode potencializar a vida cotidiana em seus locais de origem. Agradece-se a parceria firmada com as quatro comunidades, o diálogo prático-teórico, a disponibilidade para a imersão em ambiente externo, e, a representatividade destes, expondo suas falas e saber-fazeres em distintos momentos do evento. A academia se enriqueceu da cultura, do cotidiano, das vivências do Sete Saltos de Baixo, Do Palmital dos Pretos, do Sete Saltos de Cima e do Guaraguaçu. Gratidão
Por Tanize Tomasi - Pós-doutoranda PPG-UEPG e Integrante do Grupo de Pesquisas Interconexões-UEPG
Por Tanize Tomasi - Pós-doutoranda PPG-UEPG e Integrante do Grupo de Pesquisas Interconexões-UEPG